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A descoberta da insulina: 12 meses para vencer uma doença de 30 anos

Antes da insulina, o diabetes era sentença de morte. A história de como quatro pessoas mudaram isso em pouco mais de um ano, depois de três décadas de fracasso.

Fotografia histórica de Frederick Banting escrevendo à escrivaninha de seu laboratório

Prancha · vídeo do episódio

Vídeo reservado para o episódio sobre a descoberta da insulina.

Este espaço fica reservado para o vídeo do episódio. Enquanto o vídeo não entra, a imagem histórica funciona como capa provisória do post.

No começo de 1922, em um hospital de Toronto, havia uma enfermaria que quase ninguém queria visitar. Em cada cama, uma criança. Magras a ponto de a pele parecer colada no osso, algumas já sem forças para abrir os olhos. O ar tinha um cheiro adocicado, quase de fruta passada. Quem trabalhava ali sabia o que aquilo significava: era o corpo se consumindo por dentro.

Essas crianças tinham diabetes. E, naquele tempo, isso era uma sentença. Não havia remédio. O único tratamento era uma dieta de fome, cortar a comida ao mínimo para o açúcar no sangue não subir tanto. Funcionava por algumas semanas, talvez alguns meses. Mas as crianças morriam mesmo assim, num quadro que a medicina chama de cetoacidose diabética. Sem insulina, o corpo passa a se envenenar com o próprio ácido. O estágio final era o coma, e depois a morte.

Então, em poucos meses, tudo mudou. A substância que faltava no corpo daquelas crianças finalmente foi isolada. E ela tinha um nome que você conhece: insulina.

O que quase ninguém conta é que essa substância já vinha sendo caçada havia mais de trinta anos. Há estimativas de que centenas de pesquisadores tentaram, em vários países, e fracassaram. Gente experiente, laboratórios famosos. Até que a virada veio das mãos de um cirurgião que nunca tinha feito pesquisa séria na vida, a partir de uma ideia rabiscada num caderno às duas da manhã.

Por que ele? Por que ali? E por que tão rápido, depois de décadas de fracasso? É isso que esta história responde.

Uma doença antiga que ninguém sabia tratar

Para entender o tamanho do que aconteceu em Toronto, é preciso voltar muito no tempo. O problema não era novo. A doença que faz a pessoa urinar demais e emagrecer sem parar já aparece em papiros do Egito antigo, mais de mil e quinhentos anos antes de Cristo.

Séculos depois, a medicina percebeu um detalhe estranho: a urina de quem tinha a doença era doce. Doce de açúcar mesmo. Mas ninguém conseguia ligar uma coisa à outra. Faltava entender de onde vinha esse descontrole.

As ilhas no meio do pâncreas

A primeira pista forte veio em 1869. Um pesquisador chamado Paul Langerhans examinava o pâncreas no microscópio, aquele órgão escondido atrás do estômago. No meio do tecido normal, ele viu pequenos aglomerados de células diferentes, espalhados como ilhas. Langerhans descreveu essas ilhas, mas não sabia para que serviam. Mais tarde, em homenagem a ele, elas ganhariam o nome de ilhotas de Langerhans.

O passo seguinte foi quase por acaso. Em 1890, na Alemanha, dois pesquisadores, Oskar Minkowski e Joseph von Mering, estudavam a digestão. Para isso, removeram o pâncreas de um cachorro. Dias depois, notaram algo que não tinha nada a ver com digestão: o animal urinava sem parar, e a urina atraía moscas. Testaram. Estava cheia de açúcar. Tirar o pâncreas tinha dado diabetes ao cachorro.

Foi a prova que faltava. O pâncreas controlava o açúcar do sangue, e tudo apontava para aquelas ilhas de Langerhans. A ideia foi ficando clara: as ilhotas produziam alguma substância, um mensageiro químico, que mantinha o açúcar sob controle. Faltava só uma coisa, pegar essa substância.

O nome veio antes da substância

Como ela vinha das ilhas, do latim insula, a substância acabaria batizada de insulina. O nome existia antes mesmo de alguém conseguir segurá-la na mão.

E aí estava o obstáculo. Todo mundo sabia onde a insulina morava. Ninguém conseguia tirá-la de lá em estado puro. O pâncreas produz sucos digestivos potentes, feitos para quebrar comida, e esses mesmos sucos destruíam a insulina na hora da extração. Foi nesse ponto que muitos cientistas bateram a cabeça por três décadas.

A ideia das duas da manhã

A virada começou no fim de outubro de 1920. Frederick Banting era um jovem cirurgião no Canadá, com um consultório que mal pagava as contas. Para ganhar um extra, dava aulas. Numa noite, preparando uma aula sobre o pâncreas, ele leu um relato de caso escrito por um patologista, Moses Barron. O texto descrevia o que acontecia quando o canal que escoa os sucos digestivos do pâncreas ficava bloqueado: as células que fazem suco digestivo murchavam e morriam, mas as ilhotas continuavam vivas.

Banting não conseguiu dormir. Às duas da manhã, levantou e escreveu uma ideia no caderno. E se fosse possível bloquear de propósito esse canal num animal vivo, esperar a parte digestiva do pâncreas morrer e só então extrair a substância das ilhotas que sobraram, livre dos sucos que destruíam tudo? Talvez assim a insulina saísse intacta.

Um laboratório emprestado e um cara ou coroa

Era uma ideia simples. O problema é que Banting não tinha laboratório, nem verba, nem experiência. O que ele fez foi procurar alguém que tivesse. Bateu na porta de John Macleod, um respeitado professor de fisiologia da Universidade de Toronto, especialista em açúcar no sangue. No começo, Macleod não se impressionou. Mas acabou cedendo um pequeno laboratório, alguns cães e um assistente estudante para o verão.

Havia dois estudantes disponíveis, e só precisavam de um: Charles Best e um colega, Clark Noble. Para decidir quem ficava, conta a história, eles jogaram uma moeda. Best perdeu o cara ou coroa, e foi quem ficou no laboratório naquele verão. Foi essa moeda, se a história é mesmo assim, que colocou o nome de Best ao lado do de Banting para sempre.

No verão de 1921, os dois trabalharam naquele laboratório quente, com recursos mínimos. E o método de Banting, contra as expectativas, começou a dar sinal. Eles prepararam um extrato do pâncreas de cães e injetaram em outro cão, que tinha ficado diabético depois de ter o pâncreas removido. O açúcar no sangue do animal doente caiu. Pela primeira vez, alguém tinha um extrato que parecia funcionar de verdade.

Mas ir de um cão de laboratório até uma criança numa cama de hospital era outro salto. O extrato bruto ainda era impuro e causava febre e abscessos no ponto da injeção. Não dava para usar num ser humano daquele jeito. Foi aí que entrou uma quarta pessoa, decisiva e muitas vezes esquecida: James Collip, um bioquímico talentoso, com a missão de purificar o extrato a ponto de torná-lo seguro. E Collip conseguiu.

Leonard Thompson, o primeiro a sobreviver

Janeiro de 1922, Hospital Geral de Toronto. Um menino chamado Leonard Thompson, de treze anos, estava internado, à beira da morte. Pesava por volta de trinta quilos. A equipe pediu permissão ao pai dele para testar o extrato novo, e o pai, sem nada a perder, autorizou.

A primeira injeção, com a versão menos purificada, foi decepcionante. Quase nenhum efeito, e uma reação alérgica no local. Então aplicaram a versão purificada por Collip. Dessa vez, o corpo do menino respondeu. O açúcar no sangue caiu para níveis seguros. Os sinais de quem está morrendo começaram a recuar. Leonard Thompson, que estava marcado para morrer, viveu. E viveu por anos depois disso, mantido por aquelas injeções.

Pela primeira vez na história, uma criança com diabetes tinha uma saída que não fosse a morte. A notícia correu o mundo, a produção foi organizada em escala, e uma sentença de morte virou uma condição que dava para administrar.

O Nobel, a pressa e a mágoa

O reconhecimento veio rápido, rápido até demais para os padrões da ciência. Já em 1923, o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina foi concedido pela descoberta da insulina. Mas aqui a história ganha um lado humano e espinhoso.

O Nobel foi dado a duas pessoas: Banting e Macleod. E isso gerou mágoa imediata. Banting ficou furioso porque Best, o estudante que tinha suado ao lado dele, ficou de fora. Em reação, anunciou que dividiria o valor do prêmio com Best. Pouco depois, Macleod fez o mesmo, dividindo a parte dele com Collip. No fim, os quatro nomes acabaram ligados ao feito, mesmo que o diploma trouxesse apenas dois.

Há ainda outra parte dessa história que a versão mais conhecida costuma esconder. Na Romênia, um pesquisador chamado Nicolae Paulescu tinha trabalhado por conta própria num extrato pancreático contra o diabetes, que ele chamou de pancreína. Os resultados dele com animais foram publicados em 1920 e 1921, antes do primeiro artigo dos canadenses, e há registros de que o grupo de Toronto conhecia esse trabalho. Quem chegou primeiro, e quem merecia o crédito, é discutido por historiadores até hoje. A ciência costuma avançar em vários lugares ao mesmo tempo, e a linha entre o primeiro e o segundo é mais embaçada do que os livros admitem.

O que mudou em doze meses

O que mais chama atenção nessa história é a velocidade. Da madrugada em que Banting rabiscou a ideia no caderno até a primeira criança salva, passou-se pouco mais de um ano. Trinta anos de tentativas frustradas caíram no trabalho de um cirurgião teimoso, um estudante que perdeu um cara ou coroa, um professor cauteloso e um bioquímico discreto.

Juntos, eles deram a milhões de pessoas o que parecia fora de alcance: mais tempo. A imagem da enfermaria inteira despertando ao mesmo tempo é hoje tratada mais como símbolo do que como registro exato. Ainda assim, o que ela resume aconteceu de verdade. Em poucos meses, uma doença sem saída passou a ter tratamento.

Dúvidas comuns

Perguntas frequentes

Quem descobriu a insulina?

A insulina foi descoberta por Frederick Banting e Charles Best, em Toronto, em 1921 e 1922, com a colaboração de John Macleod, que cedeu o laboratório, e de James Collip, que purificou o extrato. O Nobel de 1923 foi para Banting e Macleod, mas os quatro nomes ficaram ligados ao feito.

Em que ano a insulina foi descoberta?

A ideia central surgiu no fim de 1920, os experimentos decisivos aconteceram no verão de 1921 e o primeiro paciente foi tratado em janeiro de 1922. Por isso costuma-se dizer que a insulina foi descoberta entre 1921 e 1922.

Onde a insulina foi descoberta?

Em Toronto, no Canadá, em um laboratório cedido pela Universidade de Toronto. O primeiro paciente foi tratado no Hospital Geral de Toronto.

Como o diabetes era tratado antes da insulina?

Não havia remédio. O único recurso era uma dieta de fome, que reduzia o açúcar no sangue ao mínimo e adiava o desfecho por algumas semanas ou meses. A maioria dos pacientes, sobretudo crianças, morria em cetoacidose diabética.

Quem foi o primeiro paciente tratado com insulina?

O primeiro paciente foi Leonard Thompson, um menino de treze anos, internado em Toronto em janeiro de 1922. A primeira injeção, impura, quase não teve efeito. A segunda, purificada por James Collip, baixou o açúcar no sangue e o manteve vivo por anos.

O que são as ilhotas de Langerhans?

São pequenos aglomerados de células dentro do pâncreas, descritos por Paul Langerhans em 1869. São elas que produzem a insulina. O nome homenageia quem as descreveu, ainda sem saber para que serviam.

Por que a insulina se chama insulina?

Porque é produzida nas ilhotas do pâncreas, e a palavra latina para ilha é insula. O nome foi proposto antes mesmo de alguém conseguir isolar a substância.

Por que Banting e Macleod ganharam o Nobel, e não Best e Collip?

O Nobel de 1923 reconheceu apenas dois nomes. Inconformado por Best ter ficado de fora, Banting dividiu seu prêmio com ele. Macleod fez o mesmo com Collip. Assim, na prática, o crédito acabou repartido entre os quatro.

Qual foi o papel de Nicolae Paulescu na descoberta da insulina?

O romeno Nicolae Paulescu desenvolveu por conta própria um extrato pancreático contra o diabetes, a pancreína, com resultados em animais publicados em 1920 e 1921. A prioridade da descoberta é debatida por historiadores até hoje.

Fontes deste arquivo

Dr. Renato Susin

Conheça o trabalho clínico por trás do Arquivo Médico.

O Arquivo Médico é um projeto editorial. Para conhecer o trabalho do Dr. Renato na medicina, acesse o site institucional.


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